sábado, 25 de dezembro de 2010

África

Não há continente do mundo em que as assimetrias sejam tão evidentes como África por várias razões. Para mim a principal é o seu passado colonial. Porque por muito que possamos ver as mesmas assimetrias na América do Sul e Ásia, África e o povo africano sofreram um êxodo constante das suas populações, a destruição completa das suas tribos e estilo de vida, bem como uma demarcação do seu território feita com régua e esquadro pelos grandes colonizadores (nós Portugueses incluídos). Essa divisão sem critério além de destruir uma identidade cultural,  impediu várias tribos de migrarem anualmente para locais onde pudessem cultivar os seus alimentos, bem como é responsável pelos inúmeros conflitos militares que alastram sobre esse continente. Não só, também a ambição desmedida dos líderes políticos pelo estilo ocidental...mas pelo menos é um motivo a mais para os inúmeros generais facínoras que tomaram conta desse continente.

Pessoalmente, atrai-me nesse Continente a beleza natural que sei que vou encontar, mas também o confronto com a falta de muito que tenho como adquirido.

 

Recentemente vi um documentário sobre a Libéria, que impressiona negativamente pela violência (http://www.vbs.tv/en-gb/watch/the-vice-guide-to-travel/the-vice-guide-to-liberia-1-of-8). É triste nos aperceber da recorrência deste tipo de histórias. Como a do Ruanda, tão bem retratada no filme "Hotel Ruanda" (http://trailers.apple.com/trailers/mgm/hotel_rwanda/), em que 800 mil pessoas foram mortas, sob o olhar indiferente do mundo. Uma guerra e ódio causada por uma divisão racial entre Hútus e Tútsis, perpetuada pelos colonos belgas, que elegeram os Tútsis "mais altos e elegantes” e portanto detentores de privilégios especiais. Mas não revolta só isso...revolta também as políticas da FAO, do FMI, dos poderes das grandes farmacêuticas (bem retratado também no "Fiel Jardineiro" de Felipe Menezes), a existência de bairros de lata como o de Kibera, em Nairobi, o maior bairro de lata de África com cerca de 2 milhões de habitantes, e um dos maiores do mundo (http://www.youtube.com/watch?v=-gFKF9nsPkE&feature=related). Nairobi, a capital do Quénia, tem cerca de 5 milhões de habitantes, sendo que mais de 3 milhões vivem em bairros de lata...

Ao ver este tipo de documentários, filmes, livros, notícias, não podemos deixar de sentir incredulidade e impotência. O que dizer? O que fazer? Perante o saque diários das indústrias petrolíferas na Nigéria? dos diamantes na Angola? dos minérios no Congo?  Mais, saber que o petróleo que é extraído na Nigéria representa 95% das receitas do país. Que a quantidade de gás queimado nesse país corresponde a um quarto da utilização total da Grã-Bretanha. Segundo o Banco Mundial, em cada ano são desperdiçados (???) 40 mil milhões de dólares com a queima de gás natural, sendo esta prática responsável pela emissão para a atmosfera de 400 milhões de toneladas de dióxido de carbono anualmente. O Banco Mundial recomenda que os produtores aumentem os esforços para melhorar a extracção de gás e o vendam na forma líquida. Mas tal requer que se efectuem os investimentos financeiros necessários. Estamos a falar de uma população que cozinha com lenha...parece inacreditável, mas é verdade.

E não vos parece irónico que os conflitos no leste da República Democrática do Congo se centrem na guerra pela exploração do a coltan e o cobalto, usados na fabricação de telefones celulares, computadores e outros componentes electrónicos?

Que a maioria dos conflitos em África se deva a guerras por matérias-primas usadas em produtos de alta tecnologia ou para sustentar um estilo de vida ocidental que prova estar em colapso dia após dia?

Mas África não é só exemplos de destruição. É o também de esperança. E existem inúmeros exemplos que marcam a diferença. O projecto "Charity Water" por exemplo (http://www.charitywater.org/about/), que se preocupa em angariar fundos para a construção de poços de extracção de água potável, ao angariar os fundos necessários para a sua construção e envolver a população local na sua construção (http://www.charitywater.org/media/videos/projects.php). Este projecto, fundado por Scott Harrison (http://www.charitywater.org/about/scotts_story.php), um Nova Iorquino que vivia da promoção de eventos de moda e de clubes nocturnos, e que se dedica hoje a este projecto de sucesso, é realmente inspirador (>3000 projectos concluídos no terreno, http://www.charitywater.org/projects/). A angariação de fundos (e sua aplicação, que pode ser consultada nos relatórios anuais) e o impacte deste projecto, sobretudo pelo mediatismo que tem em Nova Iorque, está a crescer exponencialmente.

Esperemos que as guerras não venham a destruir o que está a ser construído, pois infelizmente, e até os problemas serem resolvidos estruturalmente (para o qual é necessário eliminar a hipocrisia dos governos ocidentais), África sofrerá sempre na incerteza...mas também nos contagiará com a esperança :)) É isso que eu espero sentir, como voluntário…mas também sinto o medo do impacto que isso me possa causar, pois sei que, dependente das sensibilidades, podemos vir a nos sentir também nós deslocados ao voltar às nossas confortáveis “realidades”.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Simplicidade Voluntária

" O mundo caminha em direcção a uma nova era, em que a comunidade humana terá de trabalhar em conjunto se quiser realizar um futuro de prosperidade sustentável. Esta transição representa simultaneamente um grande desafio e uma extraordinária oportunidade.

Estamos a ser chamados a fazer uma mudança profunda no sentido de estilos de vida "verdes", sustentados por uma democracia madura e guiados pela sabedoria colectiva da ciência e da espiritualidade.

Viver mais simplesmente é viver com mais consciência, maior sensibilidade pela vida e pela vivência directa no mundo. É abrir-nos conscientemente, tão completa, paciente e carinhosamente quanto pudermos, ao milagre incessante da existência vulgar."

Alguns excertos de um livro que, agradavelmente, descobri numa tarde de passeio e pesquisas. Fazendo todo o sentido, resolvi partilhar convosco!

"Simplicidade Voluntária" - Duane Elgin

Sofia.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

On poverty and community empowerment

A Lia Moutselou é uma amiga que recentemente chegou de um voluntariado no Cambodja com a Safe Foundation (http://thesafefoundation.co.uk/index.php/about/). Como penso que a reflexão da Lia está muito relacionado com o que falamos no curso, uma experiência de uma voluntária, gostava de partilhar com vocês este texto. Está em Inglês :))...
 
"Poverty is not just defined by lack of money and security. It can be a state that people or groups of people are put in when they don’t have an opportunity to explore themselves, their potential and their future in the same manner that another group of people does.

So people can be defined as or feel poor when they don’t have the same opportunities as other groups that define themselves or they defined as privileged.  

I guess poverty is really felt and prominent when people can make comparisons with others. This can be caused by societal disparities and inherent contrast. Poverty and particularly feeling poor might be dangerous because it can prevent action,  limit creativity and innovation in communities. It can stop communities from supporting themselves, and lead them to rely on external support.

A community that can support itself and its members is empowered and is less likely to be antagonised by the ‘privileged’. And it might even be able to protect itself from the risk of and impacts of resource poverty. It may also be more succesful in creating opportunities for itself and its members. It can give its members the power and strength to avoid comparisons and dare. To take advantage of opportunities and assistance in a different manner. Assistance can come in monetary form but also importantly can be help with changing attitude. I think it is important to avoid creating dependent communities, to avoid supporting needy and ‘begging’ attitudes. In my view it is important to hand out  knowledge as well as help the cultivation of essential skills (particularly skills that can be transferred to members of communities we assist).

Poverty is hard for me to define. My parents both came from  poor but loving and happy families: I don’t attach the stigma that others do to ‘poverty’. They did suffer at times (particularly my father’s family) and for this reason they made sure that me and my brother were not deprived of basic commodities and education in life. I don’t think poverty is always synonymous with deprivation, despair and unhappiness. I want poverty that endangers the well being, health and safety of children and people eliminated. However, some of those that we would define poor seemed to have a better ‘quality of life’ in terms of family, connections and community engagement.  

The project and people I worked with are dignified and honourable. They support each other.  So the community support system is clearly effective. There were other groups of Cambodian people in  urban areas of Siem Reap who seemed to be in living in a much poorer and deprived state (facing immediate health risks and famine).

I have no conclusions or statements on poverty just thoughts to share. I have a lot to think about."
 
p.s. comentários ajudariam a incentivar o debate. Sei que a Estela está a ter problemas para entrar no blogue (que espero resolvidos) e enviou-me algum material para eu colocar por ela. Vou esperar para saber se sempre conseguiu (pois penso que o material deve ser colocado por cada um). Só uma última nota para a (excelente) comunicação da Rita Beckman (ISU) no encontro organizado pela Associação de Planeamento Familiar (APF) na última sexta feira (no IPJ) sobre os Objectivos para o Desenvolviemento do Milénio.

sábado, 4 de dezembro de 2010

STAFF BENDA BILILI, Um exemplo do poder da Música


No Festival de Músicas do Mundo de Sines deste ano tive o privilégio de assistir a um concerto único. O grupo Staff Benda Bilili é formado por músicos deficientes motores, vítimas de poliomielite em crianças, que dormiam e ganhavam a vida actuando nas ruas de Kinshasa.  O seu álbum de estreia, “Très Très Fort” chegou ao 1º lugar da World Music Charts Europe, foi considerado o melhor de 2009 pelas revistas fRoots e Mojo, ganharam o prémio WOMEX 2009 e venceram a categoria “melhor grupo do ano” nos prémios Songlines 2010. As letras falam da doença que os colocou em cadeiras de rodas e das histórias das crianças sem-abrigo e dos refugiados de guerra que vivem à sua volta. Este grupo conseguiu a melhor actuação do festival, e todos que lá tiveram não podem deixar de pensar de como um grupo de músicos em cadeiras de rodas conseguiu fazer toda aquela gente dançar. Muitos (como eu) ficaram a conhecer a palavra poliomielite.

A poliomielite é uma infecção viral muito contagiosa, por vezes mortal, que pode provocar fraqueza muscular permanente, paralisia e outros sintomas.  Éuma doença causada por um enterovírus, denominado poliovírus. O poliovírus transmite-se ao engolir substâncias, como água, contaminadas por fezes infectadas. A infecção estende-se do intestino a todo o corpo, mas o cérebro e a espinal medula são os mais gravemente afectados. A doença é mais comum em crianças ("paralisia infantil"), mas também ocorre em adultos. A transmissão do poliovírus pode se dar de pessoa a pessoa através de contacto fecal-oral, o que é crítico em situações onde as condições sanitárias e de higiene são inadequadas. Crianças de baixa idade, ainda sem hábitos de higiene desenvolvidos, estão particularmente sob risco. O poliovírus também pode ser disseminado por contaminação fecal de água e alimentos.

Os seres humanos são os únicos atingidos e os únicos reservatórios, portanto a vacinação universal pode erradicar essa doença completamente. Em 21 de Junho de 2002, em Copenhaga, a Comissão Regional Europeia para a Certificação da Erradicação da Poliomielite, declarou a Região Europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS) livre de polio. O último caso (não importado) de poliomielite na Europa ocorreu em Novembro de 1998. No entanto, a poliomielite ainda é considerada endémica pela Organização Mundial da Saúde na Nigéria, República Democrática do Congo, Índia, Afeganistão e Paquistão. Existem perspectivas de erradicação, mas elevado número de pessoas que deslocam de e para áreas endémicas fazem com que o risco de reintrodução da poliomielite seja preocupante e, enquanto existirem áreas endémicas no mundo, permanente. Não sem razão, entre 2003 e 2005, a doença foi reintroduzida, através de casos importados, em 25 países de onde fora anteriormente eliminada. Um desses casos é a Angola. Na República Democrática do Congo, 58 mortes foram registadas até Outubro, além de 120 casos de paralisia flácida, de acordo com a Iniciativa Mundial para a Erradicação da Pólio. A maioria dos casos afectou jovens entre 15 e 25 anos.

Uma campanha de vacinação realizada ao mesmo tempo em 15 países do continente foi lançada no fim de Outubro de 2010. O objectivo é imunizar 72 milhões de crianças entre zero e cinco anos de idade. Até o começo de Novembro, a doença fez 767 vítimas em 19 países este ano.

(fontes: FMM, Wikipédia, Portugal Digital, Organização Mundial de Saúde)